Um dos tiques mais estúpidos da imprensa esportiva é dizer sempre que “falta um meia armador ofensivo, criativo e habilidoso” no time X ou Y. É mais ou menos assim como falar que falta um Pelé, um Gérson ou um Zico. Doh. É um saudosismo disfarçado de “análise”, como se só times com jogadores “clássicos” pudessem ganhar. Mas aí vem o São Paulo do Muricy e ganha o brasileiro com 58 rodadas de antecedência e fica todo mundo quietinho. E a Itália em 2006, hein?
(Nisso surge um infeliz tipo o Thiago Neves, que acerta uns três dribles e uns quatro lançamentos, e todo mundo já se anima, abana o rabinho e chama de ‘meu bem’. Só que aí o cara sente o peso, passa a jogar mal e a “crônica especializada” – valeu, Calazans – diz, assim, com ar de quem não tem nada com isso, que é um absurdo chamar de craque qualquer um, que dá nisso etc.)
A coisa piora ainda mais quando um time x qualquer até consegue contratar um desses sonhados meias armadores ofensivos aditivados e… continua jogando mal. Alguém viu o jogo da Argentina contra o Brasil? Bom, eles têm o Riquelme. E o Barcelona, com Ronaldinho Gaúcho e Deco? Ou o fracasso nessa temporada do Milan do Kaká?
Nesses casos, em geral, o que se faz é desqualificar o jogador ou inventar factóides do tipo “ah, mas fulano está brigado com sicrano”, ou o que for. O problema disso é que acaba não sobrando ninguém. Se o Ronaldinho Gaúcho é um idiota (e ele é), se o Deco é burocrático (não é), se o Kaká não é bem um armador (até é), se o Riquelme é um ególatra (e daí?) etc etc….quem sobra? A rigor, dá para ir argumentando assim para todo mundo: Juninho Pernambucano já é coroa, Diego não consegue nem ser campeão alemão, Alex está exilado na Turquia, Seedorf está no mesmo barco do Kaká, o Ballack só faz gol de cabeça, Anderson é meia-bomba, Gerrard é invenção de inglês etc etc.
Acho que é por isso que esse pessoal teve um faniquito com a aposentadoria do Zidane, que, vale dizer, nem foi essa brastemp toda em 2006. O carequinha foi demais, óbvio; mas daí a ser tratado como a segunda encarnação do Chico Xavier vai um longo caminho. Assim, vencendo no par ou ímpar, eu escolho o Romário, o Edmundo dos bons tempos e até o Rivaldo antes dele.
Enfim, a coerência que faltou até aqui pode ser resumida assim: se desde a aposentadoria do Zidane não temos nenhum jogador que realmente se qualifique como um desses meias armadores clássicos e supercampeões que resolvem o problema de qualquer time, então qual o sentido de bancar a viúva do Gérson e afirmar que só um cara desses é capaz de resolver os problemas do time x ou y?
Se até mesmo um Riquelme da vida só dá conta do recado em um time muito específico, que joga de um jeito muito específico, por que diabos ficar batendo na tecla de que um cara desses é capaz de resolver os problemas do Flamengo, do São Paulo, da Matonense e ainda trazer a pessoa amada em três dias?
Eu não entendo. Só pode ser puro saudosismo. E um saudosismo mongolóide, que idealiza tudo, que acha que a grama era mais verde antigamente, que era só o Pelé dar um arrotinho e a bola já ia no ângulo, que o Gérson batia tiro de meta e botava a bola no pé do Jairzinho lá na ponta direita etc.
Tem muito jogo e muito time chato hoje em dia? Ô, só tem. Tem muito jogo bom? Ô, só tem também. Qual o melhor time da Eurocopa até agora? A Holanda. Quem é o super meia-armador-clássico-tchananam da Holanda? Não tem. O que eles têm é um tipo de jogo bem definido, uma meia dúzia de cabras que sabe tocar a bola rápido, pontas habilidosos etc etc. E por aí vai.
Do nada para o lugar nenhum em 300 linhas. Obrigado.
Pedro
0 respostas Até agora ↓
Ainda não há comentários... chute o balde preenchendo o formulário abaixo.