O espectro do Dinamite anda rondando São Januário há anos, mas a história ainda vai absolver o Eurico. É uma tristeza a queda dele.
Raciocinemos: vamos supor que o Dinamite esteja na vanguarda da moralização, profissionalização etc-lização do futebol brasileiro. [Favor ler essa frase, assim, com a eloqüência indignada que só a classe média sabe ter] E aí? O que sobra? Hm. Sobra que o campeonato brasileiro vai virar oficialmente a segunda divisão do campeonato português ou algo do tipo. Todo mundo ali no jeito são-paulo-futebol-clube de ser, condenando más arbitragens, jogando aquela coisinha burocrática para ganhar de um a zero, escalando os rejeitados dos rejeitados do futebol turco etc etc.
Sério, o Eurico é o homem mais carismático desse país. Desde o PC Farias não temos ninguém que se sujeite a interpretar o papel do Demônio com tanto prazer quanto ele. Entre fraudadores da Enron e mafiosos à moda antiga, o que é preferível? Eu não tenho dúvida.
Sério. É bandido? É. Faliu o Vasco? Faliu. E aí? Sabe quando a dívida dos clubes brasileiros vai ser paga? Nunca. Se for pra levar essa vida a sério, é melhor fechar tudo, recomeçar do zero e ter que vender o primeiro jogador semi-decente que aparecer por duas cocadas e três paçocas.
O grande efeito do Eurico no nosso futebol é que…bem, convenhamos, as coisas já são meio assim mesmo, não são não? A gente já tá no nível de segunda divisão européia. Mas o Eurico pelo menos é uma distração permanente. É aquela coisa: a gente é pobre, mas pelo menos se diverte.
É folclore que alimenta a paixão. Muito da rivalidade atual Flamengo x Vasco – e, por tabela, muito da popularidade dos dois times e dos jogos entre eles – se deve ao Euricão. Se for para burocratizar e exportar talento, então prefiro assistir só basquete mesmo.
O golpe que ele deu no Nations Bank rendeu dois brasileiros e uma libertadores para o Vasco. Naquela altura, um time falido como aquele, se fosse sério, jamais teria entrado nessa. Teria usado o dinheiro para pagar, reformar a sede, planejar o futuro – ZZZzzzzZZZZzzz.
A verdade é que com o Eurico os altos e baixos do Vasco foram mais altos e mais baixos do que nunca. Eu apóio. A torcida está aí achando que o Dinamite vai resolver tudo; pois bem, vai ser mais ou menos como com o Bebeto de Freitas, que já está com a corda no pescoço. (E, sério, o Botafogo é candidatíssimo ao rebaixamento; o Vasco, mesmo com essa quizumba toda, é candidatíssimo à mediocridade de meio-de-tabela. O que é menos pior?)
Por favor, hein. Entre o Ricardo Teixeira e o Eurico, eu dou minha senha do banco pro segundo. Vou ser igualmente roubado, mas pelo menos vai render uma boa história.
Só que, pelo visto, não tem mais jeito, né? Agora aguenta coração. Aguardem aí: nas próximas seis semanas a crônica esportiva desse brasilzão de meu deus vai toda cantar em verso e prosa a derrocada do Eurico, vai toda embarcar na canoa furada do “agora vai”, vai toda encher a boca pra dizer que talvez o país ainda tenha jeito etc. Do entreguismo à babação de ovo em dois atos. É isso aí.
Só que eu aposto: daqui a vinte anos, quando o Fernando Calazans estiver com uns 107 anos, esse mesmo pessoal ainda vai lamentar o fim do “charme” do futebol brasileiro, a burocratização-mediocrização etc etc, e vai lembrar com carinho do “folclórico” Eurico Miranda. Enquanto isso, o Ricardo Teixeira vai ser presidente da FIFA, o Nuzman vai ser presidente do COI e o Aécio vai se candidatar ao seu quarto mandato de presidente numa chapa com o ACM Neto.
[Se alguém comentar algo do tipo é-por-isso-que-o-brasil-não-vai-pra-frente ou por-isso-que-o-povo-não-sabe-votar, eu vou ter que me matar. Rimando]
pedro
5 respostas Até agora ↓
tdscamelo // Junho 28, 2008 às 7:46 pm
pedro cabeção, ninguém comenta neste blog, megalomaníaco. Seguinte, o campeonato de 97 não foi por conta do National Bank, nem o de 98. Nesses campeonatos, o Vasco deu uma cagada muito grande de armar o time certo na hora certa. Em 2000, o Eurico tb não era ainda presidente. O único título que o Eurico ganhou foi o carioca de 2003, com aquele gol de letra-chute da dupla Leo Lima – Souza com cabelo.
Cara, e tem muita diferença de o Eurico ser vice e efetivamente presidente. O Calçada, hj com a idade do Calazans daqui a vinte anos, segurava a onda e o pessoal (imprensa, inclusive) tinha respeito por ele. Depois do Eurico, bicho, nada foi pra frente. Nada mesmo.
tdscamelo // Junho 28, 2008 às 7:47 pm
hehehe, o que eu quis dizer é que em nenhum dos campeonatos importantes, fora o de 2000, acho, o Vasco não era patrocinado pela National Bank.
pedro // Junho 28, 2008 às 9:03 pm
po
a parceria com o nation’s bank começou logo depois do campeonato de 97. falha nossa. mas a libertadores de 98 foi grana deles. 2000 tb
cara, é mera tecnicalidade botar diferença entre o calçada e o eurico. porque na época de vice-presidente o eurico já mandava e desmandava de fato em são januário. isso lá é verdade que o calçada, bem relacionado, evitava que o filme dele queimasse. mas “administrativamente”, dava praticamente no mesmo – inclusive, o eurico conseguiu se eleger deputado nessa época em que era vice-presidente.
inclusive, o eurico permaneceu como vice-presidente de futebol – ou seja, homem forte de todas negociações etc – de meados dos anos 80 até 2003…
saulo // Junho 30, 2008 às 4:52 pm
adorei o texto, mas discordo do paralelo q tem logo no começo:
“Desde o PC Farias não temos ninguém que se sujeite a interpretar o papel do Demônio com tanto prazer quanto ele. ”
Pow, como assim o eurico assumiu o papel de demônio mais q o caixa d’ água? o homem de campos adorava chamar o povo de burro e pobre, esculachava geral…
Ad C // Julho 4, 2008 às 1:17 pm
nah, mas o Caixa D’Água só tinha mídia aqui no Rio, o Eurico tem audiência nacional… sim, os dois são “demônios” iguais, mas o Eurico teve mais projeção