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Fla-Flu no calçadão de Ipanema

Maio 31, 2008 · 1 Comentário

Estava andando outro dia no calçadão em Ipanema, num domingo de feriado, quando vi uma cena que me chamou a atenção, pouco à minha frente: dois amigos, um deles torcedor do Flamengo e o outro torcedor do Fluminense, caminhavam juntos rumo ao Leblon. Na verdade, é uma coisa muito corriqueira pela Zona Sul, onde os dois clubes imperam nos corações dos locais – o Botafogo tem uma boa representação, mas você não teria certeza se o Vasco é um time carioca se julgasse apenas pela quantidade de fãs entre São Conrado e Catete, é um grupo muito mais presente na Zona Norte do Rio de Janeiro. O que me chamou a atenção foi como os dois garotos representavam perfeitamente toda a relação entre a dupla Fla-Flu, com todas as semelhanças e diferenças que definem essas duas entidades do futebol; se Henri Cartier-Bresson tivesse fotografado, seria considerada uma obra de arte.

A simetria era incrível. Os dois garotos, na casa dos 17 aos 21 anos, andavam paralelamente, no mesmo ritmo em passos diferentes, e tinham aproximadamente a mesma altura. Ambos estavam descamisados, mas com os mantos de seus times estendidos sobre um ombro: o tricolor, à esquerda, tinha a camisa do Flu sobre o ombro esquerdo, com o escudo sobre o peito; o rubro-negro deixou sua camisa no ombro direito, com o escudo sobre as costas. O flamenguista usava um boné desses de funkeiro/playboy, o fluminense deixou o cabelo curto moreno pegando vento. Ambos de bermudas, mas o tricolor usava tênis, relógio no pulso e celular na mão, enquanto o rubro-negro não tinha nada nas mãos e caminhava de Havaianas.

A primeira coisa que qualquer um nota é a óbvia diferença de estilo dos dois. Flamengo e Fluminense são ambos nascidos no coração da aristocracia carioca, na classe média-alta, mas seguiram caminhos opostos. O clube de Laranjeiras sempre reafirmou seus laços com a elite e nobreza, enquanto o Rubro-Negro da Gávea buscou a popularização. Sem entrar em méritos de quais métodos o Fla se utilizou para se tornar símbolo popular e paixão nacional, o clube, apesar de enraizado numa área caríssima, conseguiu crescer e se tornar um time de massa, enquanto os tricolores jamais largaram mão de seu status, mesmo quando afundou na segunda metade da década de 90. E os garotos traduzem isto perfeitamente: o tricolor é o playboy despreocupado, que gosta de ter seu relógio de pulso, tem seu celular na mão para resolver qualquer parada, quer mostrar o cabelo bem cortado pra mulherada e não deixa de andar com estilo no tênis. O flamenguista não nega ser playboy, mas é mais largado, anda de sandália mermo, quer ser um pouco mais “do povo”.

O que mais me chamou atenção foi a simetria e perfeição de como as camisas estavam colocadas. O escudo do FFC estava sobre o peito, porque o tricolor carrega o Fluminense no coração. O escudo do CRF estava do outro lado, sobre os deltoides posteriores, porque o rubro-negro carrega o Flamengo nas costas.

Eu não quero insinuar que o flamenguista não seja completamente apaixonado pelo seu time, de jeito nenhum, porque eu amo essa camisa até o fundo da minha alma. Mas o tricolor é um passional muito diferente do que o rubro-negro; como foi dito por toda minha vida, o tricolor é um verdadeiro sofredor. Pense nas conquistas do Fluminense nas últimas duas décadas: dois títulos cariocas conquistados com gols no finalzinho (excluindo o título de 2002 que foi de menor expressão) e uma Copa do Brasil com empate no Maracanã e vitória suadíssima por 1 a 0 sobre o Figueirense em Santa Catarina. Até a vitória da semana retrasada sobre o São Paulo, nas quartas-de-final da Libertadores, foi com gol quase nos acréscimos. E a torcida foi junto ao time em sua decadente saga à Terceira Divisão, com muito choro, sofrimento e dedicação. Cresci rodeado (infelizmente) por tricolores em minha família e sei como foi o sofrimento. São torcedores que se entregam ao seu time…

…Mas amor é algo que nem sempre é correspondido. O Flu às vezes parece não responder aos clamores de sua torcida, uma das mais incansáveis do Maracanã. Sua indiferença crônica de elite muitas vezes interrompe o elo entre gramado e arquibancadas, o que é um triunfo quando o time joga fora de casa, mas cria problemas quando o adversário é melhor. E é aí que reside a diferença essencial para o Rubro-Negro, que vai aonde a torcida lhe levar.

Quando a torcida está determinada, o Flamengo é capaz de mover montanhas. Isso ficou claro com a campanha do time no Brasileiro do ano passado, quando nós – a Nação – nos juntamos estrategicamente para carregar o time a partir de seu retorno à casa, após mais de um mês de férias pelo Brasil por causa do Pan, para fora da zona de rebaixamento e de volta à relevância. Outros torcedores não entendem, desdenham como invenção midiática, mas era preciso estar lá no Maracanã para entender como 30, 40, 50, 60 mil torcedores conseguiram tornar um time limitado em vencedor e dar aquele empurrãozinho extra em muitas vitórias apertadas contra adversários melhores.

E ficou mais claro ainda na humilhação, neste ano; a eliminação nas oitavas da Libertadores frente ao América do México. Se a torcida está feliz e ultra-confiante, se instala o oba-oba, e o time vai junto. Logo o Maraca está cheio de visitantes de primeira viagem, o elenco e comissão técnica têm novos amigos que lhes consideram o máximo, acham que eles são foda e merecem sair mais na night, curtir a madrugada inteira, não precisam levar os treinos tão a sério, e é só aparecer no jogo que a vitória vem. Exceto que o outro time se preparou o ano inteiro pra isto, não estaria aqui se fosse ruim e sabe que tem que jogar tudo para bater o Flamengo, que esquece que, sem preparação, não vai ganhar.

Apesar de todas essas diferenças, os dois torcedores andavam juntos. Como poderiam estar separados? A história de Fla-Flu está eternamente interligada, desde a época em que remadores do Clube de Regatas representavam o Football Club, passando pela dissidência dos 10 campeões tricolores para formar o time de futebol rubro-negro, que perdeu o primeiro confronto com seu ex-clube na história, e indo além, com a eternização do Clássico das Multidões através dos irmãos Mário Filho (rubro-negro) e Nelson Rodrigues (tricolor), a eterna corrida pelos títulos cariocas, o gol de barriga de Renato Gaúcho em 95, as derrotas do Flamengo que selaram o duplo rebaixamento tricolor em 96 e 97 e os clássicos pós-rebaixamento que ajudaram o Fluminense a se reerguer no cenário carioca e nacional.

A cena se interrompeu quando uma bela menina – gostosa mesmo, daquelas que você só encontra andando na pista fechada de domingo no Leblon, ouvindo iPod com roupa de academia e cagando cheiroso pro resto do mundo – passou à frente da dupla, e ambos viraram os rostos em admiração. O troféu que encanta os dois, mas que pode tanto ser de um deles quanto de vários outros times, como meu, por exemplo. Foi neste momento que cessei de observar para apreciar minha nova vista. Sabe como é, fotografias de Bresson são geniais e oportunistas, mas esculturas às vezes são muito mais interessantes.

Ad C

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