3 a 1. Um placar tão comum no futebol – não tão comum quanto o 2 a 1, talvez, mas 3 a 1 é um placar bastante comum no futebol sim. Que o diga os tricolores cariocas, que o viram acontecer duas vezes na quarta-feira: 3 a 1 para eles no tempo normal, nos 90 e poucos minutos de jogo, e 3 a 1 para a LDU nos pênaltis, decretando um título da Copa Santander Libertadores que poderia ter ido para ambos os lados e seria justo do mesmo jeito. Só que o 3 a 1 foi muito mais do que um resultado duplo num dia de decisão; para o Flu, 3 a 1 definiu toda a temporada 2008 até o momento.
Tudo começou ainda em janeiro, quando eram 3 atacantes a 1 time titular. O Flu começou a temporada contratando um trio de atacantes de fazer inveja a qualquer clube: Washington, Dodô e Leandro Amaral. Talvez por isso, a imprensa tenha caído em cima – sabe-se muito bem que a maior parte dos jornalistas cariocas torce para o Flamengo, o que embora os torcedores rivais ergam como uma grande conspiração que se transformou na famigerada “FlaPress”, é apenas uma reflexão da sociedade carioca, em que a maioria também é rubro-negra. Se essa característica realmente se deixa transparecer por sobre o discurso de imparcialidade, não cabe neste texto discutir, mas não custa levantar a possibilidade que os flamenguistas das redações, temerosos com seu time que também disputaria a Libertadores, convenceram os coleguinhas de outros times que a formação do Flu não daria certo, e que a equipe estava fadada a falhar.
De 3 atacantes a 1 atacante só. A formação, de fato, teve poucas boas partidas juntos, e o consenso geral era que o técnico Renato Gaúcho precisava colocar um deles no banco. Mas qual? A Justiça fez o favor de livrar Renato de fazer uma escolha, ao impedir Leandro de jogar e mais tarde, reclamá-lo ao Vasco após uma série de liminares, acusações, promessas e lamentações. Em seguida, Dodô sofreu uma lesão bizarra, um afundamento na face, que o afastou dos campos e forçou o técnico tricolor a ir à guerra apenas com Washington na frente. Cícero foi colocado ao lado do centroavante como atacante, mas todos sabiam que Cícero era um 3 em 1 encarnado: meio-atacante, meio-volante, meio-tudo que o Nense precisasse.
De 3 competições a 1 só. Para a primeira metade de 2008, o Flu estava programado para disputar três competições: o Carioca, a Libertadores e o Brasileiro. Porém, o foco era chegar a um torneio que o time não estava nem inscrito ainda, o Mundial Interclubes da Fifa, troféu mais cobiçado pelos torcedores brasileiros. Para isso, porém, os tricolores abdicaram dos outros campeonatos que disputaram. Após dar bobeira e jogar mal a semifinal da Taça Guanabara, o time poupou seus titulares por boa parte da Taça Rio, chegou à decisão aos trancos e barrancos – vencendo uma decisão por pênaltis com o Vasco na semifinal – e jogou distante, com a cabeça na Libertadores, na final contra o Botafogo. Conforme foi avançando, o Flu também resolveu deixar o Brasileirão de lado e só escalar reservas. A Libertadores virou obsessão, obrigação, ocupação.
3 a 1 São Paulo. As quartas-de-final da Libertadores guardavam um confronto com o Tricolor mais bem-sucedido do país, o paulista. O atual campeão brasileiro venceu em Sampa por 1 a 0, e após marcar um gol no Maracanã, deixou ao Fluminense apenas uma opção: vencer por dois gols de diferença ou ir embora da Libertadores. Dodô marcou imediatamente e Washington acabou com o sufoco com um gol a três minutos do fim. Uma vitória de superação, para dar moral, rumo às semifinais.
3 a 1 Boca Juniors. Desta vez, o time já havia empatado contra os argentinos na primeira partida das semifinais, em Buenos Aires, e quem vencesse no Rio, levava. Os hermanos saíram na frente, mas a virada veio logo em seguida. O terceiro gol não era necessário, mas surgiu nos minutos finais, do pé de Dodô, para afastar de vez o fantasma do “matador de brasileiros”, o temido Boca, e dar a impressão que um novo time estava prestes a entrar na galeria de gigantes do país e do continente, junto ao Flamengo de 81, o Grêmio de 83, o São Paulo de 93, o Vasco de 98, o Palmeiras de 99, o Inter de 2006, entre vários outros.
3 semanas a 1 decisão. Após a vitória emocional e efusiva sobre o Boca, o Fluminense se viu obrigado a esperar mais 21 dias para disputar os jogos que esperava disputar desde 6 de junho de 2007, quando levou a Copa do Brasil e se garantiu na Libertadores. O calendário previa duas semanas de “datas Fifa”, que significam jogos de seleções nacionais e folgas para os clubes. Tempo suficiente para aumentar as expectativas, ampliar ainda mais o nervosismo e as pressões, desconcentrar-se, reconcentrar-se, perder-se e reencontrar-se. E se as finais tivessem acontecido logo na semana seguinte à semifinal? Será que o Fluminense seria derrotado, com tanta moral? Será que a LDU ou qualquer outro time seria capaz de evitar uma avalanche tricolor?
Quando Campos marcou 3 a 1 para a LDU, aos 32 minutos do primeiro tempo do primeiro jogo da decisão, notou-se que a avalanche tinha caído na cabeça do Flu. O primeiro tempo terminou 4 a 1, mas naquele gol de cabeça de Campos, em falha de marcação dos tricolores na cobrança de escanteio, já ficou claro que aquele não era o mesmo Nense das duas fases anteriores, e ficou a impressão de que os equatorianos podiam, sim, ser campeões. Meu irmão, sempre confiante na tradição tricolor de dramatizar toda e qualquer conquista e vencer na superação, se disse despreocupado e sorria, desafiador, antes mesmo de Thiago Neves reduzir para 4 a 2 e de Renato garantir, para todo mundo ouvir em coletiva de imprensa, que seu time se sagraria campeão no Rio de Janeiro. Eu, da minha parte, raramente acerto, mas desta vez, os resultados anteriores eram suficientes para que cravasse: será outro 3 a 1, e a coisa vai pegar na prorrogação.
3 gols a 1 jogador. Na verdade, foi a isso que se resumiu a vitória tricolor na última quarta no Maracanã: uma apresentação magnífica de Thiago Neves, o “Hat Trick Hero” da noite, como nos ensinou o Fifa Soccer nos anos 90. O resto do Flu foi bravo, lutou, jogou, se entregou, mas nada conseguiu. Repentinamente, as 3 opções de Renato para o ataque – Washington, Cícero e, a partir do segundo tempo, Dodô – não conseguiram marcar 1 gol do título.
3 erros capitais de marcação a 1 árbitro: o péssimo Hector Baldassi, que deixou de marcar um pênalti para o Flu, apontou impedimento inexistente de Cícero quando este estava de cara com o goleiro e, no final da prorrogação, anulou gol legítimo de Bieler, da LDU.
3 a 1 nos pênaltis. Thiago Neves quase mudou a história, mas o goleiro Cevallos catimbou, conseguiu que o juiz anulasse a cobrança certeira do meia, e pegou com o pé a segunda tentativa, já nervosa, apressada e prejudicada. Neves foi condenado ao seu próprio 3 a 1, de 3 gols a 1 pênalti perdido. E na baliza em que aconteceu a disputa, o Flu tem agora desvantagem de 3 a 1 em pênaltis: foi lá que perdeu para o Corinthians em 1976, para o Flamengo em 2001 e agora para a LDU, e foi na mesma trave que derrotou o Vasco na Taça Rio deste ano.
3 tempos disputados contra 1 apagão. Essa foi a justificativa dada pela maioria dos analistas para a derrota. Afinal, se apagado o primeiro tempo do primeiro jogo, o Flu venceu por 4 a 1 os três tempos seguintes. Mas não foi só isso. A LDU jogou à altura da decisão e levou perigo ao anfitrião neste segundo jogo, tanto no tempo regulamentar quanto na prorrogação. Os cariocas cumpriram seu papel, jogaram o que puderam, fizeram o melhor que sabiam com as ferramentas e situações que receberam, e perderam em uma disputa que nunca tem favoritos e que pode pender para qualquer lado dependendo do dia. Pênalti não é loteria, mas é preparo físico, mental, emocional, concentração, percepção espacial, interpretação, compreensão, geometria, física… Muito mais do que simplesmente um jogador contra um goleiro.
De 3 competições a 1 só. O Fluminense está de volta ao Brasileiro, onde tem três concorrentes à sua frente – Santos, Goiás e Ipatinga – juntos na zona de rebaixamento, com oito rodadas passadas. O primeiro time fora da zona, Botafogo, tem quase três vezes seu total de pontos – 8 contra 3. Para chegar à zona de classificação da Libertadores, para onde o Tricolor quer voltar no ano que vem, são 13 pontos atrás do quarto colocado, Palmeiras. Ainda restam 30 jogos, e como o Flamengo provou no ano passado, há muito tempo para arrancar e chegar nos times de frente da tabela. É só o Fluminense colocar os 3 a 1 para funcionar a seu favor novamente.
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